sábado, 2 de julho de 2011

Aprendendo a conviver com o Semi-árido

Aprendendo a conviver com o Semi-árido

O Brasil ganharia, sem precisar de muito esforço, se aprendesse com a diversidade da natureza nordestina e pensasse a aridez como vantagem e não como prejuízo para o desenvolvimento econômico e social da região
Por João Suassuna
Recife - O Semi-árido brasileiro, também chamado de Sertão - cenário geográfico onde ocorrem as secas - abrange os seguintes estados: Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e o Vale do Jequitinhonha, no Norte de Minas Gerais. Estima-se nele uma população de cerca de 20 milhões de pessoas das quais, no exacerbar de uma seca, 10 milhões passam sede e fome. É uma região de elevadas temperaturas (média de 26º C), onde o regime pluvial é bastante irregular. A média pluviométrica anual oscila entre 400 e 800 mm, com volume anual precipitado estimado em cerca de 700 bilhões de m³. Os solos são geralmente rasos, pedregosos (escudo cristalino), com ocorrência de vegetação do tipo xerófila.
Essas condições ambientais intrínsecas ao solo e ao clima servem de base para a sua classificação em zonas: caatingas, seridó, carrasco e agreste. As estiagens prolongadas ocorrem ciclicamente, trazendo efeitos nocivos para a economia da região e acarretando custos sociais elevadíssimos.
A economia da região - ainda que mais industrializada hoje do que há anos atrás - está baseada no setor primário, um complexo de pecuária extensiva e agricultura de baixo rendimento.
Uma reflexão apropriada sobre essas questões precisa ser feita por quem queira compreender o potencial dos recursos naturais do Semi-árido e, principalmente, os elementos biológicos que nele vivem. O enfoque principal desses assuntos constitui fundamentalmente o programa de trabalho do Instituto Nacional do Semi-árido (INSA), em Campina Grande (PB)

Pouco se teria a inventar mas muito a aprender com a diversidade da sua natureza, pensando conceitualmente na semi-aridez como vantagem.
Plantas e animais adaptados
Atualmente, é indispensável no Semi-árido a ampliação de trabalhos que visem ao tratamento adequado dos elementos biológicos - plantas e animais - afinados com a natureza peculiar do clima e com a circunstância sócio-cultural da região.
A identificação de forrageiras adequadas e a produção básica de suas sementes é um processo paralelo peculiar. Para a revogação da pobreza no meio rural nordestino há de se começar levando em conta essas peculiaridades. A prioridade natural do uso da terra e a harmonia necessária entre os animais e o ambiente apontam para a concepção de sistemas de produção específicos, permanentes, que devem começar pela escolha das espécies apropriadas, sejam de animais, sejam de vegetais.  A vegetação natural - a caatinga - é rica, mas carece de maiores estudos, visando à perenização do seu extrato herbáceo e à racionalização do seu uso.
É de fundamental importância o desenvolvimento de trabalhos visando à preservação de ruminantes de pequeno porte, através da multiplicação das diferentes raças de cabras e ovelhas nativas do Nordeste seco, portadores de funções produtivas múltiplas: para leite, pele e carnes. São as cabras vivazes, de pêlos curtos, e as prolíficas ovelhas deslanadas, de pele e carne superlativas.
Quanto aos bovinos, é importante a escolha de raças zebuínas, originárias dos pré-desertos da Ásia, produtoras de leite rico, de oportuna competência para digerir materiais fibrosos e dotadas de carcaça enxuta, com carnes sadias. Paralelamente ao Guzerá e ao Sindi, o gado "pé duro" do Piauí também deverá ser escolhido devido à sua adaptação ao Semi-árido desde o período colonial e ao seu enorme potencial produtivo, de baixo custo.
O trabalho deve ser voltado especificamente para o melhoramento funcional e seleção inovadora, através de controles zootécnicos desse importante acervo preservado, de admirável frugalidade e sintonia fisiológica com os caprichos da natureza regional, num ajuste de cinco séculos.
Esses animais, além da dimensão zootecnológica, fazem parte da história de vida dos nordestinos, tendo fornecido leite, couro, carne e trabalho aos nossos antepassados, inserindo-se em nosso patrimônio sócio-cultural.
A questão hídricaCerca de 70% da superfície do Semi-árido nordestino têm geologia cristalina. Nesse tipo de estrutura, os escoamentos superficiais são muito maiores do que a parte que se infiltra no solo. Essas características dos solos nordestinos resultaram em corridas desenfreadas para a construção de represas, visando ao armazenamento das águas para posterior aproveitamento. Estima-se atualmente, no Nordeste seco, cerca de 70.000 represas de pequeno, médio e grande porte.
As represas da região acumulam um potencial de cerca de 37 bilhões de m³. É o maior volume represado em regiões semi-áridas do mundo. Apesar disso não há uma política, na região, que garanta o abastecimento eficiente de suas populações, principalmente aquelas localizadas de forma difusa. A malha de adutoras que permite o acesso das águas às populações é incipiente. O resultado disso é a existência de um número expressivo de famílias vivendo, em sua maioria, no entorno das principais represas nordestinas, sem ter acesso ao precioso líquido. Além do mais, não existe vontade política para resolver esse tipo de situação, que perdura há séculos e aflige milhões de nordestinos.
Fala-se muito na água do subsolo para se resolver, de vez, os problemas hídricos da região semi-árida. Esta é uma alternativa importante, mas não é a solução para todo o problema. Dadas as características geológicas da região, há poucas possibilidades de acúmulos satisfatórios de água nesse meio.
Elas ocorrem nas fraturas das rochas e nos aluviões próximos de rios e riachos. Em geral, essas águas são pouco volumosas (os poços secam aos constantes bombeamentos) e freqüentemente de má qualidade. As águas que têm contato com esse tipo de estrutura se mineralizam com muita facilidade, tornando-se salinizadas. A título de exemplo, estima-se que 35% dos 60.000 poços escavados no cristalino do Nordeste estejam secos ou obstruídos, ou com água inadequada ao consumo humano. O uso do dessalinizador em tais casos é antieconômico, pois 1 m³ de água dessalinizada custa cerca de US$ 0,80 (oitenta centavos de dólar). Todavia, é importante a exploração racional das regiões nordestinas de geologia sedimentária, evitando, sempre que possível, os desperdícios de água, a exemplo daqueles existentes no estado do Piauí, que não aproveita de forma satisfatória as águas dos poços jorrantes escavados na região do vale do rio Gurgüéia, no município de Cristino Castro. Os poços jorram 24 horas por dia e não existe um projeto de uso adequado que justifique o programa de perfuração ali realizado.
Alternativas para a solução do abastecimento difuso no Nordeste existem e podem ser implementadas a custos relativamente baixos. A Asa Brasil - por exemplo - é uma organização não governamental que vem difundindo uma série de tecnologias de acumulação de água no Semi-árido, a exemplo das cisternas rurais, barragens subterrâneas, barreiros trincheiras e mandalas, visando a solução dos problemas dessa parcela da população considerada a mais carente em termos de recursos hídricos.
Outra alternativa para a solução dos problemas de abastecimento das populações do Semi-árido foi posta em prática, em dezembro de 2006, pelo próprio governo federal. Trata-se da edição do Atlas Nordeste de Abastecimento Urbano de Água. Esse trabalho estabelece um diagnóstico preciso da atual situação hídrica nordestina, com proposta de solução para o abastecimento através do uso de adutoras (tubulações), beneficiando cerca de 34 milhões de nordestinos.
João Suassuna é engenheiro agrônomo, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e um dos maiores especialistas na questão hídrica nordestina.
FONTE: http://www.reporterbrasil.com.br/exibe.php?id=1239

CONCEPÇÃO DE MUNDO E NATUREZA

CONCEPÇÃO DE MUNDO E NATUREZA
Texto complementar ao texto  "Concepção de pessoa e de história" , escrito com a mesma finalidade.

Abdalaziz de Moura


Como a concepção de pessoa que se tem determina as nossas relações com os outros e as outras, a concepção de mundo e natureza que se tem determina a maneira de se relacio-nar com a natureza. Do cientista mais esclarecido ao agricultor familiar mais simples, todas as pessoas têm um entendimento, uma maneira de explicar a natureza e as rela-ções entre a natureza e as pessoas. Vamos aprofundar essa questão nesse texto.

Quem está no Pará, no coração do conflito, que causou a morte da Irmã Dorothy, missionária católica e de várias outras lideran-ças tem concepção de natureza. Em uma concepção, as pessoas pensam que a vegetação exuberante da mata está lá para gerar dinheiro para as empresas madeireiras. Para isso e por conta dessa concepção, usam a moto serra como instrumento de trabalho. Derrubam toda a árvore que ser-ve para fazer madeira e exportar. 

Há uma outra concepção, que vê aquela exuberância de vegetação sujeita a determinadas leis físicas, químicas, biológicas, que merecem um trato muito especial, para manter a temperatura e o clima do mundo em condições saudáveis. Para manter a água doce, manter a vida da população local, manter as espécies de vida, a biodiversidade animal e vegetal, e por conseqüência, pensar uma economia que produza a vida, um mercado que favoreça o ga-nho e a renda das pessoas do lugar com dignidade e respeito.

As concepções que mais marcaram e marcam o pensamento da humanidade.

Atualmente, existem fundamentalmente duas concepções básicas da natureza e das relações entre as pessoas e a natureza. Uma que predomina, sobretudo a partir do Renascimento, século XVI, que avançou muito com o desenvolvimento das ciências, no período da história, conhecido como “Época Moderna”. É a concepção que entende a natureza subjugada ao homem. O homem nessa maneira de conceber é o Rei da Natureza. A natureza está aos seus pés, “como escrava” (BACON, Francis). Cabe ao homem explorá-la, tirar o proveito que puder para o seu conforto, os seus desejos e necessidades. 

Para tratá-la dessa forma, o homem tem uma grande aliada, uma ferramenta muito apropriada e eficiente, que é a Ciência Moderna. A ciência moderna ajuda o homem a vencer as leis da natureza, a superá-las, a utilizar os rios, as águas, os ventos, as chuvas, de acordo com o interesse das pessoas. Essa concepção provoca no homem relações de dominação, como entre um rei e um escravo. A ciência, e o que deriva dela, como a economia, a política de desenvolvimento contribui para manter essa relação. O que “interessa é o interes-se” do dominador, do senhor, do homem. Inclusive em relação a mulher! 

Quando essa concepção criou força e foi se explicitando, foi o tempo que os países latino-americanos, a África e a Ásia passaram a ser colonizados pelos europeus. Imbuídos dessa con-cepção, quando os portugueses viram nossas matas, entenderam logo como oportunidade de ganhar dinheiro, pois esse era o seu interesse. O Pau Brasil, com a cor de brasa que tinha, servia para uma tinta famosa na época e para móveis de luxo. O colonizador não pensou duas vezes, passou a se relacionar com os índios para que os índios facilitas-sem o corte, o transporte do pau Brasil, até quase a extinção da espécie na mata atlântica. Já o colonizador espanhol quando viu o ouro dos astecas no México e a prata dos incas no Peru, não tiveram o menor escrúpulo em destruir suas cidades para saquear os tesouros de ouro e prata e a transformá-los em barra para facilitar o transporte de navio para a Europa. 

O que interessava ao colonizador era a riqueza que iria encontrar nas Américas. Nessa época estava se formando essa concepção, que o mundo estava para ser conquistado, os mares para serem navegados até o limite da capacidade humana, que os medos teriam de ser superados, que o homem não precisaria mais se subjugar às forças da natureza, nem ao mundo sobrenatural e sim, o inverso. Desde essa época histórica, que o homem moderno vem ampliando essa concepção, firmando-la na mente das gerações, sobretudo nos países europeus do ocidente, liderados pela Inglaterra, França e Alemanha, e nos Estados Unidos e Canadá.

Essa concepção, com relativa facilidade, foi se ampliando não só às relações entre o homem e a natureza, como também entre o homem rico e o pobre, entre o branco e o negro, entre o colonizador europeu e o índio, entre o homem e a própria mulher. Alargou-se no mundo entre os países ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres (Dom Hélder Câmara). Vandana Shiva, autora indiana e engenheira nuclear tem um livro que mostra como a concepção de mundo do ocidente terminou se transformando em uma concepção machista, dominadora não só da natureza, mas também da mulher e destruidora do meio ambiente. As mesmas idéias estão trabalhadas no livro de Friti-jop Capra, A Sabedoria Incomum .

Uma concepção diferente

Há uma outra concepção diferente dessa, que em vez de conceber o homem como senhor do mundo, fora domundo, concebe como participante do mundo, dentro do mundo, sujeito às leis da natureza. Uma outra concepção que também usa a ciência, mas com outro fim. Usa a ciência para facilitar a lei da natureza, numa relação de cooperação, não de exploração ou de dominação. Também como a outra concepção tem conseqüência na vida prática, na economia, nas relações entre pessoas, entre gênero.

Pegando o exemplo do Pará e do Rio de Janeiro, onde em 2005 já aconteceram as mortes da Irmã e de um Ambientalista, ou o exemplo da morte de Chico Men-des no Acre, porque morre-ram? No fundo está o choque de duas concepções. Chico Mendes queria um desenvolvimento com os povos da floresta, possibilitando o “manejo sustentável da mata”. Para ele essa forma de manejo era suficiente para as pessoas viverem dignamente, utilizarem a madeira, as essências, os frutos, o mel, sem agredir a natureza, deixando seus elementos se perpetuarem para todas as gerações futuras que viessem a habitar o planeta naquele território. Essa concepção reconhece a história do lugar valoriza os conhecimentos dos antepassados, dos índios, dos seringueiros, os recursos locais. 

Essa concepção também inspira um modelo de desenvolvimento, que em vez de deixar o lucro para as empresas madeireiras do estrangeiro ou do sul do país, deixa as riquezas para melhorar as condições de vida das pessoas do lugar. Para isso, a ciência aplicada no território deve produzir conhecimentos, ferramentas, equipamentos que ajudem a natureza a manter suas leis, a biociência ajude a aproveitar as riquezas que existem no solo, nas plantas, nos microorganismos, nos animais. E que valorize as riquezas das pessoas, da cultura, da história local.

Conseqüências na vida prática das pessoas e grupos humanos

Como dá para perceber, trata-se de idéias, de maneira de pensar, de ser, de comportar-se diferentes. Uma concepção leva a determinados tipos de atitude e outra leva a outros tipos. E essas atitudes são de vida prática, são de vida cotidiana. E quem a aplica e desenvolve essas concepções não são só os estudiosos, os pesquisadores, os intelectuais. O agricultor familiar, o assentado da reforma agrária, o usineiro, o jovem, a professora, o gestor público ou privado também desen-volvem essas concepções.

Temos por exemplo entre os agricultores ou agricultoras familiares aqueles que plantam, criam, vendem, mas que da natureza só pensam em tirar, em explorar, em conquistar o sustento da família, dos seus animais e das suas plantas. O que interessa para eles é ganhar mais, produzir mais. Se para ganhar mais for necessário acrescentar adubo químico, eles acrescentam, se for necessário por veneno no mato para ganhar mais rápido, eles põem, se for necessário para o ganho usar o agrotóxico contra as pragas, eles usam.

Essa concepção usa a natureza como se tivesse fora dela, usa equipamentos e materiais desenvolvidos pela ciência para explorar mais ainda. Não se importa com as leis da natureza, o que devolve e joga na terra é aquilo que não faz bem a ela, pelo contrário, prejudica. Impede que as leis da natureza cumpram sua função. Esse agricultor ou agricultora que faz isso não vive nas cadeiras das universidades. Isso prova que para desenvolver concepção, para ter filosofia, todas as pessoas fazem e possuem. E prova também como a concepção que a pessoa tem da realidade tem conseqüências no dia-a-dia da vida.

Vejamos o caso do agricultor que pratica a permacultura ou a agricultura orgânica. Ele sabe que não é suficiente cuidar da planta, dos animais e da família. Tem outro componente que ele precisa cuidar que é exatamente, o que dá a vida à planta, aos animais e à família. Esse componente é a natureza com todos os elementos que fazem parte dela: o solo com os micro-organismos, os fungos, as bactérias, os insetos, as águas, as plantas, o clima, a temperatura, o vento, o sol, etc. 

Esse agricultor ou agricultora trata o solo e a natureza com carinho, em cooperação, facilitando o trabalho da própria natureza. Por exemplo, em vez de por um veneno para matar o mato que cresce entre as plantas, ele ou ela pega os matos e os trata como a natureza gosta de fazer, facilita o trabalho dela. E como a natureza gosta? Gosta de fazer do mato, o alimento para o solo, para os microorganismos. A natureza quer esse mato de volta, transformado outra vez em terra.

A fome é uma criação humana

Entrevista
publicada na edição nº 418, julho de 2011.

O Brasil está diante de uma oportunidade inédita: acabar com a fome e com a pobreza extrema, que atormentam milhões de famílias em praticamente toda a história do país.
     Mas para Selvino Heck, assessor extraordinário da Secretaria Geral da Presidência da República, é preciso mais.
     Não podemos conviver com os maiores índices de desigualdade social e econômica do mundo sem nos mobilizarmos num ato de cidadania para reverter esse quadro.
Selvino Heck,assessor extraordinário da Secretaria Geral da Presidência da República.
Endereço eletrônico: selvinoheck@terra.com.br

Mundo Jovem: Por que existe fome no Brasil e no mundo?
Selvino Heck: Se olharmos esse momento histórico brasileiro e mundial, nós temos uma questão estrutural e uma questão conjuntural. Estamos numa crise econômica profunda, que começou em 2007 e, segundo os especialistas, deverá continuar talvez por uma década ainda. Isso tem levado ao aumento da fome no mundo. Todas as reflexões têm mostrado essa situação: a fome, que estava diminuindo (em torno de 800 milhões), hoje está atingindo cerca de um bilhão de pessoas. E cresce nos países mais pobres, especialmente na África e na Ásia, mas cresce também, por incrível que pareça, nos Estados Unidos e na Europa. Porque há uma crise que faz com que o crescimento econômico seja menor e que a concentração de renda e de riqueza esteja aumentando no mundo. Mas, pela primeira vez na história, essa crise não está acontecendo da mesma forma no Brasil e na América Latina e não está tendo também os mesmos efeitos.

     Do ponto de vista estrutural, a fome é resultado do tipo de sociedade que temos: uma sociedade capitalista que concentra renda, exclui as pessoas, não permite que haja igualdade e uma melhor distribuição de renda. Então a razão estrutural é esta: uma sociedade que visa ao lucro, e o lucro acontece junto com o acúmulo de riqueza e de renda. Além disso, nós vivemos 20, 30 anos de neoliberalismo. O neoliberalismo significa: “Quem pode mais, chora menos”. Mas não se trata apenas da política econômica e social, é também uma política cultural, de valores, que influencia na maneira como as pessoas agem em relação umas às outras. Precisamos fazer um trabalho longo de reconstrução de valores de solidariedade.

Mundo Jovem: Então, a fome é uma situação criada pela organização humana?
Selvino Heck: O exemplo é o próprio Brasil, que sempre apresentou fome e miséria em grau acentuado e que na última década está diminuindo. Existem políticas sociais, governamentais, existe o programa Fome Zero e um conjunto de outras políticas que enfrentaram a fome. Já existe no Brasil, há uns 15, 20 anos uma forte presença de organizações sociais: toda a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, no início coordenada pelo saudoso Betinho.

     Isso significa que, se a sociedade se mobiliza, se o governo tem políticas públicas para enfrentar a fome, ela diminui e pode até acabar. Se você olhar um país como Cuba, lá não existe fome há muito tempo, porque existem políticas de Estado que colocam como questão central o direito ao acesso das pessoas à alimentação. A fome não é natural. A fome depende das políticas sociais e econômicas.

Mundo Jovem: O que ainda persiste no Brasil é a desigualdade?
Selvino Heck: Nós temos no Brasil uma questão estrutural ao longo de séculos: sempre se produziu uma desigualdade econômica e social muito grande, e que continua. Vem diminuindo pouco. Márcio Pochmann, presidente do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), afirma que 10% ainda concentram um percentual de 70% da riqueza nacional, sendo que os 90% mais pobres têm acesso a apenas 25% a 30% da renda nacional. Na opinião dele, se a gente considerar as famílias donas de conglomerados econômicos, cinco mil famílias detêm mais ou menos 45% da renda brasileira, o que é uma concentração absurda.

     Em 2003, nós estávamos entre os quatro ou cinco piores países do mundo em distribuição de renda. Hoje estamos entre os 15, 20 países com a pior distribuição de renda do mundo. Ou seja, melhoramos bastante, mesmo assim a desigualdade ainda persiste.

     No início dos anos 2000 tínhamos no Brasil em torno de 50 milhões de pessoas que, ou passavam fome diariamente, ou não tinham alimento suficiente regularmente. Hoje, diminuiu mais ou menos pela metade, mas temos ainda em torno de 16 milhões de pessoas que estão na extrema pobreza, e esse é um universo que se pretende atacar agora. No momento em que a presidenta Dilma propõe que um país rico é um país sem pobreza, isso significa enfrentar o tipo de desenvolvimento econômico, enfrentar a desigualdade na distribuição de renda, a desigualdade econômica e social. Dizer que num país rico não há pobreza significa também dizer que se alguém vai ganhar, outro vai ter que perder. É muito mais difícil, mas tão urgente quanto acabar com a fome é construir um país com mais igualdade social e econômica.

Mundo Jovem: E o desperdício de alimentos?
Selvino Heck: Há um desperdício de alimentos por falta de uma estrutura melhor para que o alimento chegue à população. E isso implica melhorar a infraestrutura no Brasil. Muitas vezes se produzem alimentos que não chegam até a população. Há problemas de transportes e outros que levam ao desperdício. Há também toda uma cultura, um modelo de desenvolvimento que, muitas vezes, começa na nossa casa, onde, ao sobrar comida, coloca-se no lixo. Mas há principalmente uma situação de desperdício em restaurantes, hotéis... É uma cultura, uma visão consumista de quem paga e se dá o direito de jogar as sobras no lixo.

     Já foi criado um banco de alimentos para juntar restaurantes, hotéis, escolas, enfim, instituições em geral, para reutilização e redistribuição desses alimentos. Mas é fundamental também pensar numa escala de valores, em que cada um de nós deve se sentir responsável, solidário, consciente de que a comida que temos, e que até sobrou, outros não têm.
     O Brasil não tem política de abastecimento. Perde-se trigo, arroz, mandioca etc. porque não há política de estoque. No Conselho Nacional de Segurança Alimentar, uma das coisas que estão sendo priorizadas é que os governos municipal, estadual e federal possam garantir isso: onde há alimento de sobra, ter onde estocar. Ou ter alimento estocado para regular preços, pois no Brasil, muitas vezes, a inflação acontece pela falta de um regulador de distribuição de alimentos.

Mundo Jovem: O que é preciso ser feito para equilibrar a alimentação?
Selvino Heck: Historicamente, o Estado brasileiro esteve a serviço de poucos. Nosso desafio é, entre outros, construir um Estado democrático, a serviço de todos. Hoje o Brasil é a sétima economia do mundo e, no entanto, existem 13 milhões de famílias precisando do Bolsa Família. É um país que tem agricultura, tem água, sol, clima favorável; pode plantar duas a três vezes na mesma terra durante um ano, coisa que quase nenhum outro país do mundo tem. Precisamos da parceria do governo, das igrejas, das organizações sociais, da juventude para, de forma coletiva, construir um novo modelo, uma nova proposta, com uma nova mentalidade e uma nova perspectiva de sociedade.

Mundo Jovem: E não se deveria investir mais nas crianças?
Selvino Heck: A meta do Plano Nacional de Educação é dobrar o investimento em educação, desde a creche (construir mais 6 mil creches no Brasil), a Educação Básica, o Ensino Médio, o Ensino Profissionalizante e até o Ensino Superior. Mas não é suficiente construir e dar acesso à escola, e sim observar também que tipo de ensino, como lida com a realidade das pessoas.

     O mundo está numa encruzilhada. Temos que decidir que mundo, que tipo de desenvolvimento se deseja, como conciliar com as questões ambientais. E o Brasil está num outro tipo de encruzilhada: é uma das referências do mundo, está em crescimento econômico, mas que tipo de sociedade se deseja construir? Esse é um desafio. Queremos matar a fome de pão, mas não basta apenas matar a fome de pão, embora isso seja fundamental e prioritário. Junto com o matar a fome de pão, deve-se saciar a sede de beleza, cidadania, democracia... Essa consciência coletiva é fundamental para enfrentarmos a fome e a pobreza.

Mundo Jovem: Que ações sugere para os jovens?
Selvino Heck: Primeiro, é um desafio. Ninguém tem respostas prontas. A juventude de 20, 30 anos atrás não é a mesma de hoje, portanto as formas de organização necessariamente serão outras. Hoje, a comunicação da juventude é uma comunicação instantânea, e essas novas formas de linguagem são fundamentais no sentido de serem incorporadas no dia a dia, para um trabalho social que se queira fazer, ou num movimento de conscientização e organização da juventude.

     A primeira coisa a fazer é partir da realidade atual da juventude, dos seus problemas, das suas inquietudes. Então, ou se acham novos caminhos, novas formas de linguagem ou a juventude não pensará num mundo onde a solidariedade é fundamental e o cuidado com o meio ambiente é decisivo.


Uma endemia que precisa ser enfrentada

     No ano de 2000, a Organização das Nações Unidas lançou os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (Oito Jeitos de Mudar o Mundo - Nós podemos). A intenção é a reestruturação social a partir da superação dos entraves estruturais e da responsabilização do poder público e da sociedade quanto às suas responsabilidades para a promoção da vida em dignidade com os direitos assegurados. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) propõe: 1) Erradicar a extrema pobreza e a fome; 2) Atingir o ensino básico universal; 3) Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia da mulher; 4) Reduzir a mortalidade infantil; 5) Melhorar a saúde materna; 6) Combater a HIV/AIDS, a malária e outras doenças; 7) Garantir a sustentabilidade; 8) Estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento.

     Com esses Oito Jeitos de Mudar o Mundo, o PNUD alerta para problemáticas que assolam nossa sociedade continuadamente e que não podem mais ser remediadas, tendo que ser enfrentadas com políticas públicas eficazes para minimizar suas consequências. A erradicação da extrema pobreza e da fome - mui sabiamente enfocada como prioridade - deve ser tratada com maior responsabilidade, visto que a fome, segundo o escritor brasileiro Josué de Castro, deixou de ser apenas a simples falta de alimentação com implicações biológicas e fisiológicas, assumindo proporções contingenciais de forma contínua, passando de epidemia para endemia social.

     A fome interliga-se direta e indiretamente ao analfabetismo, à desigualdade entre os sexos, à mortalidade infanto-juvenil, à gestação precoce e sem os devidos cuidados, à disseminação de doenças e à sustentabilidade. Um dos elos entre os países, membros ou não da ONU, deve ser a busca pela superação da extrema pobreza e da fome. Só assim os direitos humanos inerentes a cada cidadão podem ser garantidos. Ao sanar essa endemia, que se dê o primeiro passo para alcançar a totalidade dos objetivos subsequentes.

     Josué de Castro dizia ainda que “a fome e a guerra não obedecem a qualquer lei natural, são criações humanas”. Isso nos remete à necessidade de reconhecermos nossas responsabilidades enquanto cidadãos, entidades governamentais e demais representações. Essa responsabilidade é conjunta na superação desse problema, muitas vezes banalizado e comercializado, visto que a fome é fruto de uma sociedade desigual.

Iara da Rocha Dantas,
Jaguarari, BA.
Endereço eletrônico: iara.rocha.sso@hotmail.com

sexta-feira, 1 de julho de 2011

CONSUMO SOLIDARIO
E
UCLIDES ANDRÉ MANCE
1. Concepto
Significa consumir bienes o servicios que sirvan a las necesidades
y deseos del consumidor, buscando: (a) realizar su libre bienvivir
personal; (b) promover el bienvivir de los trabajadores que elaboran,
distribuyen y comercializan dicho producto o servicio; (c) mantener
el equilibrio de los ecosistemas; (d) contribuir a la construcción de
sociedades justas y solidarias.
2. Definición analítica
El consumo es la instancia final del proceso productivo. Teóricamente,
el proceso de producción se organiza en función del consumo,
aunque en las sociedades capitalistas el consumo mismo es concebido
sólo como una mediación para el círculo de la producción, para la
conversión del valor económico objetivo en valor económico general,
tornando viable la realización del lucro y la acumulación de la plusvalía.
El consumo como tal puede ser analizado en tanto
consumo productivo
(consumo de insumos, energía, etc.), para la realización de un bien
o servicio y, como
producto, utilización del bien o servicio.
Entre otras clasificaciones, el consumo puede ser desdoblado en
cuatro clases: alienado, compulsivo, para el bienvivir y solidario.
El
de las semiosis publicitarias. La mercancía, en este caso,
fundamentalmente cumple el papel de objeto soporte, y adquiere
una forma modelo a través de diversas semióticas que la asocian
imaginariamente a propiedades extrínsecas que ella no tiene, pero
consumo final, entendido como terminación delconsumo alienado se refiere al consumo practicado bajo influencia
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LA OTRA ECONOMÍA
por las cuales es interpretada y consumida. Generando deseos y fantasías,
las propagandas motivan a que uno compre los productos,
asociándolos a otros elementos, situaciones o identidades que a las
personas les gustaría tener, disfrutar o ser. Al comprar los productos,
en tanto, uno asegura la realización del lucro, y completa así el círculo
de la producción capitalista.
El
satisfacer las necesidades biológicas, culturales y situacionales y que
se da cuando uno cuenta con pocos recursos para atenderlas o no
tiene alternativas para elegir. En este caso, cuando la persona realiza
sus compras, siempre busca lo que es más barato, aunque el producto
sea de mala calidad. Lo que importa es llevarse a casa la mayor
cantidad posible de mercadería. Aquí, las personas no están preocupadas
por la calidad del producto ni por las marcas famosas, sino en
maximizar la cantidad de lo que podrán comprar con el mismo dinero.
En otro ejemplo, si el único modo de ir a algún lugar es pasar por
una autopista bloqueada por un peaje y no tenemos otra elección
más que pagarlo para pasar por la ruta, ahí entonces se lleva a cabo
un consumo compulsivo.
El
por los artificios publicitarios y, por tener recursos que posibilitan
elegir qué comprar, elige aquellos productos y servicios que sean
satisfactorios para realizar el propio bienestar, y se garantiza su singularidad
como ser humano.
Finalmente, el
del propio bienvivir personal, sino también del bienvivir colectivo,
favoreciendo a los trabajadores que produjeron dicho bien o servicio
y el mantenimiento del equilibrio de los ecosistemas. Se trata, así,
del consumo en el que uno prefiere los productos y servicios de la
economía solidaria en vez de consumir productos de empresas que
explotan a los trabajadores y degradan los ecosistemas. El consumo
solidario también es practicado con miras a contribuir para la creación
de puestos de trabajo que puedan ser ocupados por los que
están desempleados, garantizándoles condiciones de vida dignas; para
preservar el equilibrio de los ecosistemas y para mejorar el nivel de
consumo compulsivo es aquél que uno tiene que realizar paraconsumo para el bienvivir ocurre cuando uno no se deja engañarconsumo solidario es practicado en función no sólo
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CONSUMO SOLIDARIO
ingresos de todos los que participan de las redes solidarias, combatiendo,
de ese modo, la exclusión social y la degradación ambiental.
3. Importancia actual
El consumo solidario de los productos y servicios de las redes
posibilita que sus emprendimientos vendan la totalidad de su producción,
ampliando el excedente logrado y sus posibilidades de
reinversión colectiva en la implementación de otras iniciativas solidarias,
generando, por lo tanto, nuevos puestos de trabajo y posibilitando
la producción de otros bienes y servicios todavía no disponibles
en esas redes. Se asegura así una mayor oferta de bienes y servicios
a los consumidores tanto en lo que se refiere a diversidad y calidad,
como a la distribución del ingreso a través de la incorporación de
más personas al proceso productivo, lo que, a su vez, posibilita el
aumento de la demanda y la satisfacción producida por productos
finales, preservándose el equilibrio de los ecosistemas.
El concepto de consumo solidario sustituye la noción de
crítico
tomas de posición de los movimientos ecologistas y de defensa de los
consumidores. Bajo la lógica del consumo crítico, cada acto de consumo
es un gesto de dimensión planetaria, que puede transformar al
consumidor en un cómplice de acciones inhumanas y ecológicamente
perjudiciales –de modo que el consumo puede ser contaminante,
insustentable y opresivo–. No se trata solamente de considerar al desecho
final derivado del consumo –paquetes, envoltorios, etc.–, sino también
el impacto ambiental del propio proceso productivo, que puede
ser insustentable, provocando fenómenos tanto de agotamiento de recursos,
como de alteraciones dañosas a los ecosistemas locales y planetario,
como la ampliación del agujero en la capa de ozono, el efecto
invernadero, la alteración de las corrientes marítimas, las lluvias ácidas,
etcétera, cuyas consecuencias son dramáticas para las poblaciones
y para el planeta como un todo. Además, el consumo puede
configurarse como una forma de connivencia con la opresión y la
injusticia, a medida que consumimos productos que provienen de actividades
productivas inhumanas a las que están sometidos los trabajadores
y trabajadoras, e incluso los niños. Frente a esta situación, y
considerando el aspecto ecológico, se propone al consumidor las fa
consumo, desarrollado en las últimas décadas, el cual se originó en las82
LA OTRA ECONOMÍA
mosas 4R: (a)
gasten recursos no renovables, etc.; b)
través del reciclaje
abandonando las modas, adquiriendo productos usados, etc.; d) reparar
los bienes que se rompen, aumentando su vida útil. Además, se
propone no desperdiciar energía (petróleo y otros recursos); mantener
una posición defensiva en los supermercados (en lo que se refiere a la
música ambiente, exposición de los objetos, envíos a domicilio, facilidades
para el pago, publicidades y otros elementos que buscan activar
el consumo de bienes que, en verdad, no serían indispensables); fomentar
los servicios colectivos –en particular el uso del transporte
público– o la utilización colectiva de equipamientos, tales como lavarropas,
computadoras, etc.; por fin, superar el miedo a la austeridad, es
decir, darse cuenta de que es posible vivir confortablemente, con menos
objetos y utensilios que no aportan nada significativo a las mediaciones
que necesitamos para el bienvivir.
Para presionar a las empresas con el fin de que tengan prácticas socialmente
justas y ecológicamente sustentables, los consumidores tienen a su
disposición dos instrumentos para condicionarlas hacia la adopción de
determinados criterios de producción y comercio: el boicot y el mencionado
consumo crítico. El
temporaria de la adquisición de uno o más productos para hacer que la
sociedad productora abandone ciertos comportamientos” (CNMDS, 1998).
A su vez, el
vez que incurrimos en algún gasto, frente a todo lo que compramos.
Concretamente, el consumo crítico consiste en elegir bien los productos
basándose no sólo en el precio y en la calidad de los mismos, sino también
en su historia y la de los productos similares, y en el comportamiento de
las empresas que los ofrecen” (CNMDS, 1998). De este modo, el consumo
crítico se sostiene sobre la evaluación de los productos y de las empresas
que los elaboran, y permite al consumidor que sus elecciones sean guiadas
por criterios conscientes que consideren además de las calidades técnicas
de los productos y sus similares, los impactos de su producción y consumo
desde una perspectiva económica, ética y ecológica.
El consumo crítico se diferencia del consumo solidario ya que es
posible practicarlo comprando productos de empresas capitalistas o
de empresas solidarias, al tiempo que el consumo solidario solamente
es viable de ser practicado cuando uno compra productos y servicios
provenientes de la economía solidaria.
reducir el consumo de ítem inútiles, descartables, querecuperar lo que sea posible a; c) recuperar los bienes a través de su re-utilización,boicot consiste en la “interrupción organizada yconsumo crítico es “una postura permanente de elección, cada
83
CONSUMO SOLIDARIO
4. Evaluación crítica
La difusión del consumo solidario es uno de los elementos centrales
para la estrategia de expansión de las redes de colaboración o de
cierta parte de las redes de economía solidaria. La difusión de ese
tipo de consumo posibilitaría a los emprendimientos la venta de toda
su producción y la generación de excedentes que, reinvertidos colectivamente,
permitirían emprender nuevas iniciativas autogeneradas
remontando las cadenas productivas y expandiendo las redes,
diversificando las ofertas y ampliando su número de consumidores.
Las principales objeciones a la práctica del consumo solidario son dos,
en tanto estrategia de enfrentamiento de la reproducción del capitalismo.
La primera sostiene que la realización del consumo solidario “presupone
un conocimiento previo respecto de cada producto –pasando
por quién los produjo, la forma en que lo hizo, el material utilizado
hasta los impactos de la producción y consumo de dichos productos
en el medio ambiente y en la sociedad–, algo que es imposible de
tener” (Assmann y Mo Sung, 2000). La segunda afirma que “al proteger
las pequeñas unidades solidarias de producción,
solidario les ahorra la necesidad de actualizarse técnicamente, llevándolas
a un cierto acomodo en una posición de inferioridad, en la
que terminan vegetando
En lo que concierne a la primera objeción, es posible representar
fácilmente, en una única etiqueta, los aspectos solidarios y ecológicos
de cualquier producto o servicio, tomando en consideración toda
su cadena productiva. Una etiqueta de este tipo está compuesta de
una figura dividida en tres partes, reservadas a los aspectos de:
insumos, producción y comercialización, de modo que cada parte
esté subdividida en otras dos que se refieran a las propiedades solidarias
y ecológicas de los insumos, de la producción y de la comercialización.
Cada uno de esos seis espacios, a su vez, puede ser
rellenado, en diferentes proporciones, con colores distintos que indiquen
la afirmación, negación o desconocimiento de dicha propiedad.
La proporción en la que se van a rellenar los casilleros puede corresponder
tanto al valor relativo de los costos, los diferentes ítem de
ciertos campos, como seguir niveles preestablecidos por las redes.
el consumo” (Singer, 2002).
84
LA OTRA ECONOMÍA
Tomando en consideración las diversas escalas de esas proporciones,
se pueden elaborar códigos de barras capaces de almacenar las
informaciones de las cadenas productivas particulares a cada producto,
como en el ejemplo del código simplificado que se representa.
En la primera parte de la barra está la especificación del carácter
solidario
Así, cuanto más próximas del 9 estén las barras de la primera
parte, más ecológico y solidario será el producto. Cuanto más
próximas del 9 estén las barras de la segunda parte, menos solidario
y ecológico. En ambas partes, el primer par de dígitos se refiere a los
insumos, el segundo a la producción y el tercero al comercio. En
cada par, el primer número indica la propiedad ecológica y el segundo
la solidaria.
Por lo tanto, sólo hay que considerar la utilización de los insumos
diversos en la composición del producto final para generar las proporciones
correspondientes a la nueva etiqueta para determinado
producto.
y ecológico y en la segunda parte lo no-solidario y noecológico.
85
CONSUMO SOLIDARIO
La segunda objeción no considera que el consumo solidario es
una forma de consumo para el bienvivir. A medida que el producto
le garantiza al consumidor su bienestar y el proceso productivo les
garantiza el bienvivir a los productores y el equilibrio del ecosistema,
no es un problema el que sea mantenido bajo tales parámetros de
sustentabilidad técnica, social y ecológica. No obstante, si el producto
deja de satisfacer al bienvivir de los consumidores, debido al refinamiento
de la sensibilidad de éstos, o porque el proceso productivo
inviabiliza la creación de más tiempo libre, considerando el desarrollo
tecnológico ya alcanzado socialmente, entonces a las redes solidarias
les corresponderá promover las transformaciones requeridas
para que los nuevos niveles del bienvivir tecnológicamente posibles,
socialmente demandadas y ecológicamente sustentables sean adoptados
en los emprendimientos, dado que ello es ventajoso tanto para
los consumidores como para los trabajadores.
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Solidario/Ecológico
❘ P. ❘ C. ❘❘ I. ❘ P. ❘ C.❘❘ No-solidario/No-ecológico
ARTIGO: REVISTA DE PSICOLOGIA POLÍTICA, vol. 6, nº12, 2006. CONSUMO ÉTICO: CONSTRUÇÃO DE UM NOVO FAZER POLÍTICO?Isleide Arruda FontenelleFundação Getúlio Vargas/EAESPRESUMO: Objetiva-se compreender o movimento pelo consumo ético e refletir sobre seu alcance na constituição de uma nova cultura de consumo e seu papel no “espaço público”. Efetuou-se uma revisão bibliográfica sobre o tema, em interlocução com a abordagem sociológica sobre os processos de democratização, consolidada nos anos 90, que traz a perspectiva de uma dinâmica nova do “espaço público” a partir da emergência de novos atores políticos e, com isso, recupera a possibilidade de um diálogo entre teoria crítica e teoria democrática. Na ausência de uma produção acadêmica nacional, buscou-se, na literatura internacional, as principais interpretações sobre o tema: uma que assume a positividade do movimento, sua capacidade de resistência e seu poder de transformação social; e outra que aponta para a negatividade do movimento e sua total absorção pelo mercado. Como pano de fundo, tem-se a problemática da falsa autonomia do sujeito burguês e da (im)possibilidade da consciência crítica.Palavras-chave: consumo ético; cultura de consumo; espaço público; democratização; consciência crítica1. Introdução“O posicionamento ético é a continuação da guerra por outros meios” (Gilles Lipovetsky). O objetivo deste ensaio teórico é o de refletir sobre o alcance do “consumo ético” na construção de uma nova cultura de consumo; bem como, de questionar até que ponto esse tipo específico de movimento de consumidores representaria uma forma nova de política no seu significado amplo, qual seja, no sentido de recolocar a questão do “espaço público” como uma esfera de crítica e de poder na determinação dos rumos da transformação social. Consumo ético, na proposição dos autores e organizadores do livro The Ethical Consumer (Harrison; Newholm; Shaw; 2005), se refere a um ato de compra (ou não compra) no qual estão implícitas as preocupações do processo de consumir com os impactos que isso possa causar ao ambiente econômico, social ou cultural. Ou seja, ele está circunscrito ao fato de que o consumidor pensa e se preocupa com os efeitos que uma escolha de compra gera aos outros e ao mundo externo como, por exemplo, com o tratamento despendido aos trabalhadores envolvidos na produção de um determinado produto, ou com os impactos ambientais que certos produtos causam. Esse tipo de atitude, que pode ser individual, só se tornaria política ao se condensar em um coletivo, denominado de movimento de consumidores ou consumer activism, nas proposições de Lange e Gabriel (2005). Empreendendo uma breve história sobre o ativismo dos consumidores, os autores demonstram como esse termo não é novo, remontando ao século XIX, através de histórias de boicotes e de formação de cooperativas de compras, como as cooperativas inglesas emergentes no final do século XIX, formadas em reação aos preços excessivos e à má qualidade dos produtos. Os autores reconhecem que o ativismo dos consumidores tem sido pouco teorizado na literatura histórica e acadêmica, mas apontam para a importância que o movimento pelo consumo ético tem ganhado nesse início de século, na medida em que as questões contemporâneas que o movimento tem levantado envolvem problemas complexos como a sustentabilidade do planeta, o comércio justo, a solidariedade social, e os direitos do consumidor enquanto direitos de cidadania.Mas qual é o alcance e a efetividade desse tipo de movimento? Murphy e Bendell (2001) descrevem os consumidores como a nova força capaz de enfrentar as grandes corporações em face do declínio do poder e a da influência dos sindicatos trabalhistas; e que eles, de fato, estão causando impactos profundos nos projetos das grandes corporações. Segundo os sociólogos Beck (1999) e Giddens (1990), tendo em vista que muitos dos riscos que nós estamos enfrentando são decorrentes das nossas próprias ações humanas na construção das sociedades de consumo, tais ações passaram a ser questionadas e politizadas. Sob essa perspectiva, o “consumo ético” estaria provocando uma mudança na atual sociedade de consumo de massas e formatando uma nova “cultura de consumo”.Mas até que ponto esse tipo de atitude pode ser considerada política no seu sentido amplo, qual seja, na determinação de uma transformação social que altere o jogo de forças no qual predomina, hoje, o mercado? Na literatura crítica internacional, há dois tipos de interpretação: a que acredita na importância do movimento em provocar mudanças radicais na sociedade contemporânea e, nesse sentido, promover a transformação social; e, em uma perspectiva oposta, uma interpretação que recusa ver o movimento como uma forma de ação política. Na primeira linhagem, estariam trabalhos como o de Klein (2002), Gorz (2005), Canclini (1996;1990), Beck (1999) e Giddens (1990). Entre os que desacreditam dessa possibilidade, encontram-se autores como Frank (1997; 2004) e Potter e Heath (2005). Tais autores e suas argumentações serão desenvolvidos ao longo deste artigo. Por ora, pretende-se demonstrar que o debate em torno dessa questão aponta para as reflexões que este artigo apresenta acerca das relações entre consumo ético e espaço público, lançando mão, especialmente, da abordagem sociológica sobre o processo de democratização na América Latina, consolidada ao longo dos anos 90, que redefiniu a noção de “espaço público” enquanto um“modelo discursivo”. Essa concepção, que “diz respeito mais propriamente a um contexto de relações difuso no qual se concretizam e se condensam intercâmbios comunicativos gerados em diferentes campos da vida social” (Avritzer & Costa, 2004), reforça a importância da sociedade civil como um eixo central das novas relações de poder. Mas é possível se assumir que tal concepção também deixa brechas para se pensar a emergência de novos atores que surgiram como produto de novas formas de vida e de comportamento, dentre os quais poder-se-ia localizar o movimento de consumidores?Certamente que as respostas para essas questões só poderiam ser respondidas a partir de uma pesquisa empírica mais ampla, na qual, de fato, este ensaio teórico está inserido. Entretanto, tal pesquisa – sobre movimentos de consumidores e consumo ético no Brasil – ainda está em fase inicial de realização. Daí porque, neste momento, propõe-se este ensaio teórico no sentido de apontar as questões, as reflexões teóricas e a importância de se colocar, na pauta da discussão, a temática dos movimentos de consumidores e do consumo ético. Adianta-se, também, que, embora a produção acadêmica sobre consumo ético já comece a despontar em publicações internacionais – das quais a coletânea “The Ethical Consumer” é uma referência e traz contribuições de diversas áreas -uma primeira revisão da literatura nacional na área de Psicologia não indicou produções acadêmicas nesse sentido.Visando contribuir para esse debate, o presente artigo discorrerá sobre os seguintes tópicos: sobre o papel do consumo ético na produção de uma nova cultura de consumo; e sobre as relações entre resistência, poder e politização do consumo. Por último, tecem-se algumas considerações finais a respeito do assunto. Com isso, pretende-se alcançar uma melhor compreensão sobre o que está acontecendo no campo do consumo ético e sobre o que a análise desse campo nos fornece a respeito do espaço público e do papel da sociedade civil. Em outras palavras: estariam os movimentos de consumidores que defendem o consumo ético forçando a produção de uma nova cultura de consumo, na medida em que lançam mão de seu poder de causar danos às imagens de marca? Até que ponto isso poderia provocar uma transformação social mais ampla ou, nessa esfera, o ativismo dos consumidores se apresentaria como um mero movimento de resistência passiva que, estruturalmente, não mudaria muita coisa?2 . O consumo ético na produção de uma nova cultura de consumoBuscando entender o que provocou o florescimento de movimentos pelo consumo ético nas últimas três décadas, Harrison et al. (2005) identificaram sete fatores: a globalização dos mercados e o enfraquecimento dos governos nacionais; a ascensão das marcas e corporações transnacionais; a ascensão de campanhas de grupos de pressão; os efeitos dos avanços tecnológicos sobre os ambientes natural e social; o deslocamento do poder do mercado em direção aos consumidores; a eficácia de campanhas de mercado; o crescimento de um amplo movimento de responsabilidade corporativa. Tais fatores teriam emergido como resultado de uma sociedade de consumo no qual o mercado tornou-se dominante, mas cujas conseqüências sociais teriam transformado o consumo em um espaço de disputa política, tanto pelos problemas a ele associados, quanto pela“descoberta” da força do consumidor frente ao poder do mercado. Na perspectiva de Lipovetsky (2004), o consumo ético pode ser compreendido como a contrapartida da responsabilidade social corporativa, espelhando uma nova forma de gestão global que foi pautada por uma necessidade ética do mundo organizacional, no sentido de recolocar a dimensão humana nas empresas. Nesse sentido, para Lipovetsky, a ascensão da ética nos negócios se deveu a quatro fatores: a) a uma necessidade real de preservação do meio ambiente e do homem; b) a uma busca de maior transparência dos mercados, tendo em vista o novo modelo econômico do capitalismo a partir das políticas neoliberais dos anos 1980, gerando uma fúria econômica e, conseqüentemente, escândalos corporativos que puseram o mundo organizacional sob suspeita; c) a uma nova estratégia do marketing, na medida em que as empresas passaram a perceber o lado benévolo de atitudes socialmente responsáveis para suas imagens de marca; d) a uma promoção da cultura empresarial, em busca de uma mobilização dos empregados, na medida em que, acredita-se, alcançando uma imagem de respeitabilidade externa, a empresa também conseguiria motivar o seu pessoal e a mobilizá-lo, fazendo com isso também influenciasse na dinâmica produtiva da empresa.Embora a perspectiva de Lipovetsky não deixe espaço para se pensar que o movimento pela “ética nos negócios” seria decorrente de uma pressão social - e, não apenas, de uma escolha das empresas-, ela nos ajuda a demonstrar como as organizações já estão reagindo ao movimento. Nesse sentido, o consumo ético pode ser compreendido como o resultado necessário de um novo estágio das sociedades de consumo e, como desdobramento deste, pode se apresentar como uma nova estratégia de negócio e de fortalecimento da imagem. Um conceito que permitiria pensar essa questão seria o de “risco”: risco corporativo relacionado especialmente aos prejuízos causados, por uma “crise de imagem”, sobre a reputação da empresa, com repercussões negativas diretamente na escolha dos seus consumidores. O processo funcionaria da seguinte maneira: diante da pressão de movimentos de consumidores, especialmente do “patrulhamento das ONG´s”, as empresas estariam sendo impelidas a desenvolverem um modelo de produção socialmente responsável como uma nova estratégia de negócio. Sendo assim, na outra ponta, as empresas buscariam disseminar a sua imagem“socialmente responsável” através de estratégias de comunicação que veiculassem e valorizassem suas ações, visando um consumidor disposto a realizar uma escolha “politicamente correta”, ou seja, que reconheça e atribua valor a tais estratégias empresariais. O “consumidor ético” passa a ter, portanto, um papel fundamental, especialmente através das escolhas de compra, consumindo ou boicotando determinados produtos por conta das ações das empresas envolvidas em sua produção. Esse movimento parece indicar que poderia estar se dando a construção de uma nova cultura de consumo, tal qual se constituiu, nas primeiras décadas do século XX, a “cultura de consumo de massas”. Como a história da formação da sociedade de consumo americana nos mostra, a construção da sociedade de massas foi mais que um projeto econômico: foi também um projeto político de grande envergadura que, nos anos 1920, contou com a força-tarefa da comunidade empresarial, de intelectuais da “psicologia humana” e de medidas políticas do Presidente Herbert Hoover. Dentre muitos os fatores que contribuíram para a “criação da psicologia do consumo de massa”, estão a criação do crédito ao consumidor, o surgimento dos subúrbios e um novo imaginário baseado na insatisfação que formatou uma “expansão capitalista do desejo” (Sennett, 2006) . A esse respeito, também são interessantes as referências de Jeremy Rifkin em “o Fim dos Empregos” (Rifkin, 1995) e de André Gorz, em “O Imaterial” (Gorz, 2005) Ambos os autores discorrem longamente, a partir de uma vasta bibliográfica histórica sobre o período americano, sobre como se deu a produção dessa sociedade de consumo de massas e como isso se espraiou pelo mundo como um american way of life. Nesse sentido, os profissionais de marketing tiveram um papel fundamental na longa jornada de “educação” do povo americano para que, por exemplo, este viesse a desistir da compra a granel –ainda predominante nas primeiras décadas do século XX – e passasse a consumir produtos industrializados e embalados em massa. Tal cultura de consumo se globalizou, sobretudo, a partir do segundo pós-guerra e, mesmo misturando um ideário americano às especificidades nacionais, o fato é que se pode falar de uma “estandardização da cultura mundial, com as formas locais populares ou tradicionais sendo deslocadas ou emudecidas para abrir espaço para a televisão americana, para a música americana, para comida, roupas e filmes, como um aspecto central da globalização.” (Jameson, 2001:20).Em que pese essa predominância dos produtos culturais americanos, há algo mais penetrante a se enfocar aqui: a de que consumir tornou-se uma modalidade específica de vida, como afirma o sociólogo Zygmunt Bauman: “quando falamos de uma sociedade de consumo, temos em mente algo mais que a observação trivial de que todos os membros dessa sociedade consomem... O que temos em mente é que a nossa é uma ‘sociedade de consumo’ no sentido, similarmente profundo e fundamental, de que a sociedade dos nossos predecessores, a sociedade moderna nas suas camadas fundadoras, na sua fase industrial, era uma ‘sociedade de produtores’. Aquela velha sociedade moderna engajava seus membros primordialmente como produtores e soldados; a maneira como moldava seus membros, a ‘norma’ que colocava diante de seus olhos e os instava a observar, era ditada pelo dever de desempenhar esses dois papéis... Mas a maneira como a sociedade atual molda seus membros é ditada, primeiro e acima de tudo, pelo dever de desempenhar o papel de consumidor. A norma que nossa sociedade coloca para seus membros é a da capacidade e vontade de desempenhar esse papel” (Bauman,1999:87-88).De fato, esse modelo cultural ainda predomina nos nossos dias, e é esse modelo que o movimento de consumidores pelo “consumo ético” vem questionar. Nesse sentido, é interessante apontar como, em seus primórdios, as batalhas travadas em torno do consumo ético não colocavam em xeque a sociedade de consumo de massas. Pelo contrário. Eram batalhas pela inserção no modelo, visando baixar os preços dos produtos ou questionando a higiene, a qualidade ou a segurança dos mesmos. Foi apenas a partir da década de 1970 que começou a emergir, muito lentamente, uma nova forma de organização de consumidores voltada a questionar o consumo excessivo e propor alternativas a ele. Segundo Harrison et al. (2005) essa nova onda de ativismo passou a envolver temas como consumo verde, ética, solidariedade para com o terceiro mundo e orientações para comércio justo. Entretanto, para esses autores, somente a partir da década de 1990 é que foi possível apreender uma coerência global desses movimentos que pudesse agregá-los em torno do termo “consumo ético”,especialmente a partir da criação da Ethical Consumer Research Association(ECRA), no Reino Unido, e do Council on Economic Priorites, nos Estados Unidos. Assumindo o poder do consumidor – “cada vez que você se dirige a uma caixa registradora, você vota.” (Will; Marlin; Corson; Schorsch; 1989:143)– esses novos movimentos passaram a afirmar que seus objetivos seriam provocar uma mudança cultural e promover a consciência do consumidor sobre as implicações globais do padrão de consumo do mundo ocidental. Em que pese a força e a importância desse movimento para uma transformação da cultura de consumo de massas, há outros elementos em jogo. Rifkin (2001) demonstra um outro lado que nos faz compreender a real extensão das novas formas de atuação das organizações: não se trataria apenas de reagir a uma forma de resistência do consumidor, mas o foco em formas de produção e consumo“socialmente responsáveis” poderia ser também produto de um esgotamento do mercado de massas, no sentido de que o capitalismo enfrenta um novo desafio: “Para as nações ricas e, em particular, para os 20% mais abastados da população mundial que continuam a colher os frutos oferecidos pelo modo capitalista de vida, o consumo de bens está quase alcançando o ponto de saturação. Restam poucos valores psíquicos que se podem tirar ao se ter… aparelhos de todo tipo para suprir todas as necessidades e desejos possíveis. É nessa conjuntura que o capitalismo está fazendo sua transição final para o capitalismo cultural plenamente desenvolvido…”(Rifkin, 2001:117). Demonstrando sua tese, Rifkin nos mostra como o mercado empreendeu a desregulamentação das funções e serviços do governo nas décadas de 1980 e 1990 e, em menos de duas décadas, absorveu grande parte do que antes era da esfera pública, incluindo, no âmbito comercial, os serviços de utilidade pública, de telecomunicações e do transporte coletivo. A próxima etapa da esfera pública a ser absorvida pelo mercado, ainda segundo Rifkin, seria a cultural já que, no capitalismo contemporâneo, “a única área onde há oportunidades para se ganhar dinheiro é o oferecimento de experiência aos clientes, na forma de serviços.” (Rifkin, 2001:76). Daí porque, o capitalismo do futuro, ainda segundo Rifkin, terá que, necessariamente, envolver um “vasto arranjo de experiências culturais”, tais como: viagem e turismo global, parques e cidades temáticos, centros de bem-estar, enfim, formas de entretenimento pessoal pago. De fato, quando analisamos as denominadas pesquisas de mercado de tendências culturais, constatamos o quanto o mercado tem mapeado e investido em uma nova frente: na Economia da Experiência (Pine & Gilmore; 1999), desenhada como produto do“novo desejo fundamental”, que estaria relacionado a buscar “estados alterados que realmente façam bem, conexões humanas mais saudáveis, um senso de identidade, e caminhos e líderes com fins benévolos” (Davis, 2003:280). Ou seja: a fusão entre cultura, ética e negócios, que termos como “marketing cultural” e “marketing social” definem tão bem.Essa necessidade estrutural do mercado que o faz buscar novos nichos de consumo se soma a outras perspectivas que nos apresentam um quadro mais acabado da crise da sociedade de consumo de massas, qual seja, o esgotamento dos recursos naturais e do próprio imaginário, no sentido de ter se tornado claro de que o sonho do consumo de massas nunca esteve, mesmo, ao alcance de todos. No que diz respeito à questão da sustentabilidade, o estudo de Portilho (2005) demonstra a virada discursiva que se deu no movimento de defesa pelo meio ambiente que, a partir da década de 1990, deslocou a ênfase até então dada à produção, para o campo dos hábitos de consumo e do papel do consumidor na responsabilidade pela sustentabilidade ambiental. Essa questão tem impacto no imaginário, na medida em que torna claro o quanto o planeta Terra não suportaria a extensão do consumo de massas a todos os rincões da terra, como era a promessa da ideologia do progresso.Na perspectiva de Frank (1997), seria esse estado de coisas que estaria levando as empresas a absorverem os movimentos de resistência dos consumidores. Autor do livro “The conquest of cool”, Frank demonstra como os movimentos contraculturais dos anos 60 injetaram um novo alento para o mercado e para a renovação e perpetuação da sociedade de consumo. Nesse início de século, com a nova etapa pelo “consumo ético”, o mercado também teria encontrado sua nova face: trata-se do “marketing de libertação... do capital”,título de um artigo escrito por Frank para o Le Monde Diplomatique, no qual o autor demonstra a nova feição do marketing, que absorve o discurso crítico e até mesmo questiona a sociedade de consumo: a publicidade da moda admite que realmente há algo de errado com a nossa existência, que o mercado não nos deu tudo o que prometeu, que não resolveu os problemas decorrentes do desenvolvimento capitalista...Seguindo essa grande narrativa publicitária, estimulada todos os anos por centenas de bilhões de dólares, o problema maior de nossas sociedades seria o conformismo, e a resposta apropriada, o carnaval... Para resistir, seria preciso que freqüentássemos as redes de restaurantes ‘étnicos’, ou víssemos os vídeos de Madonna. Ou simplesmente homenageássemos os consumidores que o fizessem... A crítica do capitalismo tornou-se, de forma bem estranha, o sangue salvador do capitalismo. É um sistema ideológico fechado, dentro do qual a crítica pode ser abordada e resolvida, porém de maneira simbólica. (Frank, 2004).De fato, quando nos deparamos com o imenso “mercado verde” ou com o“mercado da cidadania”, relacionados, respectivamente, a atitudes politicamente corretas e a ações de filantropia e de responsabilidade social, somos tentados a concordar com Frank e a admitir que esses movimentos de consumidores funcionariam como uma espécie de vírus do sistema, que, à semelhança de Neo, no filme Matrix, seriam produzidos para indicar as falhas e as possibilidades de correção do modelo. Ou seja: poderiam até causar mudanças no modelo, mas não alterariam as relações de força, comandadas, hoje, pelo mercado, e nem empreenderiam transformações sociais mais amplas. Mas o movimento pelo consumo ético também inspira um outro tipo de interpretação que o coloca como novo ator social. Referindo-se ao livro“Sem Logo”, de Klein (2002), André Gorz argumenta que a autora retraça, ao mesmo tempo, o método e a extensão da “tomada dos espaços públicos e a resistência que ela encontra” (Gorz, 2005:51). Essa tomada se daria através da penetração cultural das grandes corporações e suas marcas publicitárias, gerando uma nova forma de conflito: “uma luta de classes deslocada para um novo campo: o do controle da esfera pública, da cultura comum e dos bens coletivos. Os atores da resistência, organizada... em grande escala – ou melhor, auto-organizada localmente e internacionalmente graças à Internet -, são movimentos de estudantes secundaristas, de consumidores e de moradores decididos a reconquistar o domínio público, a novamente se apropriar do espaço urbano, a retornar o poder sobre seu meio, sua cultura comum e sua vida cotidiana.” (Gorz, 2005:51-52).De fato, Naomi Klein estaria retratando uma forma específica de resistência ligada ao contexto do consumo: a de negar que todos os aspectos da vida fossem transformados em mercadoria. Segundo a autora, essa forma específica de resistência se chamaria “movimentos anticorporação”, mas seu livro acaba por abrir o leque, a fim de incluir toda forma de protesto que não indicaria “manifestações e um só movimento, mas convergências de muitos movimentos menores, cada um visando a uma multinacional específica (como a Nike), um setor particular (como o de agrobusiness) ou uma nova iniciativa de comércio (como a Área de Livre Comércio das Américas), ou em defesa da autodeterminação de povos nativos (como os zapatistas)” (Klein, 2002:478). Esses movimentos estariam lutando com as mesmas forças que, segundo Klein, baseiam-se em participações no nível local – associações de bairro, sindicatos, fazendas, grupos anarquistas, etc – mas que visariam, estrategicamente, desvincular suas lutas de algo étnico ou local, a fim de apontar uma questão universal e um inimigo global: o neoliberalismo, caracterizado pelo poder mundial do mercado. Tais movimentos ainda estariam, segundo a autora, substituindo as instituições tradicionais “que antes organizavam os cidadãos em grupos ordenados e estruturados [e que] estão todas em declínio: sindicatos, religiões, partidos políticos.” (Klein, 2002:483).Desse ponto de vista, tratar-se-ia, de fato, de uma mudança de perspectiva cultural e política: a agenda de conflito dos movimentos de consumidores estaria absorvendo temas caros à agenda política dos processos de democratização relativos à esfera pública e aos direitos de cidadania. Portanto, não se trata apenas de uma questão semântica. Dessa perspectiva, o consumidor assume, de fato, o lugar de um ator político de maior importância, através de uma nova forma de conflito caracterizada pela não mediação estatal, que interpela diretamente o mercado e usa, como arma de protesto, os riscos à imagem publicitária das corporações.Por que essa mudança de foco? Para Newholm (2000), tendo em vista a influência que a cultura de consumo teve em moldar nossos estilos de vida, nós, cada vez mais, expressamos nossas éticas através do consumo, precisamente porque o consumo e sua relação com a construção da auto-imagem, tornou-se nossa principal atividade e aquela que mais consome o nosso tempo. Daí porque, quando os consumidores são forçados a considerar as conseqüências existenciais do consumo, isso pode apontar para uma nova concepção de cidadania na qual o consumidor tem um papel central. Nesse sentido, ganha espaço a tese de Nestor García Canclini, que articula consumo e cidadania a partir de um outro prisma: aquele no qual “os Estados cederam ao capital privado o controle da economia, tanto material quanto simbólica, através da privatização em larga escala.” (Portilho, 2005:15). Tal mudança de contexto forçou a recolocação da questão do público no qual o consumidor reconhece não apenas o seu direito mas, principalmente, o seu poder. Isso nos encaminha para a segunda parte do artigo.3 . Resistência, poder e politização do consumo: novos domínios do espaço público?A temática do consumo sempre representou um objeto central de reflexão para a teoria crítica que, a partir dos escritos de Adorno; Horkheimer (1985), sob como as sociedades de consumo estariam gerando uma nova“cultura de massas”, produziu um amplo arcabouço teórico-crítico que demonstrou o lugar do consumo na sociedade contemporânea e de como, a partir do marketing e de seus principais mecanismos de persuasão (anúncio comercial e publicidade), começou a se dar uma infiltração da esfera comercial na esfera pública, mediante uma forma de comunicação cada vez mais guiada pelo mercado. Tal fenômeno seria ainda mais forte nas sociedades latino-americanas, caracterizadas pela inexistência histórica de um espaço comunicativo semelhante ao contexto europeu, possibilitando, dessa forma que os meios de comunicação de massa passassem a ser os mediadores sociais por excelência e estabelecessem “uma nova diagramação de espaços e intercâmbios urbanos” em tais sociedades (Canclini, 1990:.49). Tal estado de coisas levou a uma interpretação central da teoria crítica, especialmente adorniana: a da perda da autonomia do espaço público e da atomização do indivíduo e sua transformação em consumidor de entretenimento. Predominante ao longo de quase toda a metade do século X, foi apenas na década final do referido século, no prefácio da reedição alemã de 1990, do livro Mudança Estrutural da Esfera Pública, que a teoria crítica foi revisitada por Jurgen Habermas, um dos principais representantes contemporâneos da Escola da Frankfurt (Habermas, 2003). Em uma bela revisão histórica que faz sobre o desenvolvimento do conceito de espaço público, Avritzer e Costa (2004) enfatizam as questões centrais que Habermas elaborou nesse prefácio, no qual sustenta o potencial público de crítica, a despeito da pressão da mídia, e detalha “o papel de uma esfera pública politicamente influente dentro de sua concepção teórico-discursiva da democracia.”(Avritzer & Costa, 2004:709)[1].Ainda, segundo esses autores, Habermas recuperou a possibilidade de uma relação entre a teoria crítica e a teoria democrática que passou a demarcar uma nova abordagem sociológica sobre o processo de democratização na América Latina, que se consolidou ao longo dos anos 90 e que redefiniu a noção de “espaço público” enquanto um “modelo discursivo”. Entretanto, os autores apontam para necessidades de correção do modelo discursivo habermasiano, dentre os quais, estaria a proposição de Cohen e Arato (1994) acerca da emergência dosnew publics: “a criação e expansão de novos públicos e novos locide realização de formas críticas de comunicação – contextos de difusão de subculturas, movimentos sociais, microespaços alternativos, etc..., os quais colocam em movimento dinâmicas de inovação cultural e contestação dos padrões sociais estabelecidos no plano, por exemplo, das representações de gênero, das relações étnicas, etc.” (Cohen & Arato, 2004:711).Seria possível, a partir dessa definição dos new publics,identificar o movimento pelo consumo ético, tal qual ele vem sendo caracterizado nesse início de século - com sua agenda voltada para questões como comércio justo, direitos civis, solidariedade global, etc -, como um novo ator político, que pudesse recuperar a relação entre teórica crítica e teoria democrática? A revisão bibliográfica empreendida até o momento nos leva a perceber um silenciamento a esse respeito no campo da teoria crítica. O avanço do conceito de espaço público, no interior da literatura sociológica ao longo dos anos 90, indica um debate travado em torno da questão da representação e do conceito de democracia, ou seja, da relação entre política institucionalizada e“relação argumentativa crítica”, com a organização política no lugar da participação direta. É esse o centro do debate e é em torno dele que os denominados “novos movimentos sociais” ou new publics, são chamados a participar, tendo em vista que, na proposição habermasiana, o espaço público continuaria “estabelecendo, como órbita insubstituível de constituição democrática da opinião e da vontade coletiva, a mediação necessária entre a sociedade civil, de um lado, e o Estado e o sistema político, de outro.”(Avritzer & Costa, 2004:708). Convém destacar que a questão da representação também é central para o movimento de consumidores “éticos”, envolvendo desde as organizações que se fundam e agem em torno dos limites institucionais, até os movimentos mais radicais – como os denominados “ecoterroritas”, de defesa dos animais - que negam o lugar do Estado e reivindica a ação direta e anárquica. O fato é que esse poder de pressão direta sobre as corporações têm levado teóricos do anarquismo, como o antropólogo americano David Graeber, a tomarem esses exemplos como modelos vivos de formas contemporâneas de luta pela reinvenção da democracia, mediante uma ação direta que pudesse mudar o mundo sem ser a partir do controle do Estado (Graeber, 2005). No campo da literatura, o escritor J.G. Ballard tematizou diretamente sobre essa questão envolvendo a revolta de consumidores. Falando a respeito do seu livro “Terroristas do Milênio”, em entrevista dada à Folha de São Paulo, Ballard (2005) assume que “a política fracassou completamente no mundo inteiro e não é mais capaz de resolver nossos principais problemas –intolerância étnica e racial, desigualdades de renda, epidemias globais, a destruição do ambiente, o aquecimento global, ajudar o Terceiro Mundo e tantos outros. Onde a política falha, soluções mais perigosas e radicais tendem a aparecer...” (Ballard, 2005). Em que pese esse foco, o livro de Ballard não apresenta o consumidor como uma força política capaz de fazer frente a tal estado de coisas; pelo contrário, sua crítica ácida se dirige, ao mesmo tempo, à sociedade de consumo, ao Estado e à “falta de sentido” dessa revolta de consumidores entediados com aquilo que lhes dá conforto e comodidade.Essa questão permeia o debate em torno da politização do movimento. Daí porque, para Harrison et al. (2005) – que são ao mesmo tempo, ativistas e pensadores do movimento –, é preciso definir consumo ético, antes de tudo, como aquele que está preocupado com questões para além do mundo interno dos consumidores, ou seja, com sua saúde, seu conforto, sua qualidade, etc. As “bandeiras” do consumo ético precisam ser, na perspectiva desses autores, fundamentalmente externas, voltadas para o mundo que os rodeia, encampando o tema da solidariedade. Assim, a questão da representação política está ligada a uma outra temática – que também aproxima o movimento pelo consumo ético das reflexões que fundaram a teoria crítica – qual seja, a da possibilidade de consciência crítica. Na medida em que as proposições do consumo ético, nesse sentido, é de circunscrevê-lo ao campo da moral, de mudar a mentalidade para o consumo, até que ponto isso pode representar a possibilidade da “consciência crítica” e da ação política? Sabe-se o quanto esse tema foi central, especialmente nas proposições de Adorno a respeito da “autonomia ilusória do sujeito burguês [e] do funcionamento opressor da razão científica e tecnológica, inclusive em sua aplicação ao campo social” (Dews, 1996:51), o que levou a uma certa paralisação da teoria crítica acerca da possibilidade da emancipação. Mas sabe-se, também, o quanto, para Adorno “as verdades mais profundas, e amiúde não reconhecidas, dos artefatos culturais revelam-se pelos seus aspectos aparentemente mais marginais e fortuitos” (Dews, 1996:51). Desnecessário, portanto, afirmar a importância de se pensar a emergência de um movimento de crítica no interior de uma cultura na qual o consumo passou a influenciar, decididamente a maneira como nós agimos, pensamos e vivemos ao longo da vida.O desafio deste artigo é, justamente, propor que é possível se pensar o movimento pelo consumo ético no horizonte da teoria crítica, a partir das duas temáticas elencadas acima, quais sejam: a do nível da representação política e o da consciência crítica. Trata-se de um desafio para o futuro, que este artigo não tem a menor pretensão de esgotar mas, tão somente, de apontar, na medida em que, para ser rigorosamente coerente com a teoria crítica, tal empreendimento só poderia ser plenamente realizado a partir da pesquisa empírica. Retomando Habermas, quando o autor forjou seu conceito de espaço público enquanto espaço discursivo, não deixou de levar em conta a ambivalência constitutiva da esfera pública, marcada como esta está pela imbricação entre a esfera pública e a privada, levada a cabo pelo mercado, especialmente, pelos meios de comunicação de massa. Daí porque, propôs que as associações voluntárias que operariam na esfera pública, se opondo aos atores instituídos, fossem desvinculadas do mercado e do Estado – e passassem a se denominar “sociedade civil” – e alertou para que tais movimentos fossem avaliados individualmente e empiricamente, a fim de que se pudesse compreender o seu alcance de interferência nas instâncias decisórias.Será, portanto, mediante a realização da pesquisa empírica sobre movimento de consumo ético que se espera encontrar maiores desenvolvimentos para as questões que este ensaio teórico aponta. Mas espera-se que este artigo já contribua com o debate, na medida em que aponta algumas questões contemporâneas pertinentes às questões relativas às possibilidades da emergência do sujeito do conflito.4 . Considerações finaisEste ensaio teórico procurou compreender uma faceta do movimento de consumidores, denominada de “consumo ético”, visando entender até que ponto ele estaria forjando uma nova cultura de consumo, em oposição à cultura de consumo de massas. O levantamento bibliográfico realizado até o momento permite elucidar que, em conjunto com outros fatores - o esgotamento do mercado de consumo de massas e a demanda das empresas por novos nichos de consumidores; bem como, um problema real de sustentabilidade do planeta -, o movimento pelo consumo ético tem forçado a uma mudança de mentalidade e, portanto, à produção de uma nova cultura de consumo. Essa ainda emergente cultura de consumo pode ser localizada em movimentos pelo consumo verde, boicotes contra empresas que não são socialmente responsáveis ou, inversamente, através da compra positiva. O artigo também procurou refletir sobre a produção acadêmica que vem teorizando sobre o movimento pelo consumo ético, que se divide em duas formas opostas de interpretação: aquela que aponta para o consumidor ético como um “novo ator social”, no sentido de que ele seria a força capaz de pressionar por transformações sociais mais amplas; e, por outro lado, uma posição que aponta a total absorção dos ideários do consumidor ético pelo mercado. Mas o artigo propôs que é possível refletir sobre a temática do consumo ético a partir da teoria crítica, na medida em que foi esta teoria que melhor formulou os impasses relacionados à questão da esfera cultural e das (im)possibilidades de uma esfera cultural autônoma. Através dos conceitos de representação política e de consciência crítica – ambos presente no horizonte prático do movimento pelo consumo ético, bem como, no horizonte teórico da crítica da cultura – a realidade contemporânea poderia interpelar e fazer avançar a teoria que, a esse respeito, tem se emudecido. Tais proposições têm um horizonte de pesquisa mais amplo, qual seja, uma pesquisa empírica sobre movimento de consumidores e consumo ético no Brasil, que ainda está em sua fase inicial de realização. As reflexões obtidas ao longo deste ensaio teórico indicam para a necessidade de um foco maior da pesquisa na mecânica da “consciência crítica” e da reinvenção da democracia nesses novos processos de contestação que trazem em seu bojo a crítica ao consumo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASADORNO, T.; HORKHEIMER, M. (1985). Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.AVRITZER, L; COSTA, S. (2004). 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O que se pretende é que, com o desdobramento da pesquisa que este artigo propõe, se possa partir da formulação de Habermas – e de sua teoria comunicacional da sociedade, com seu potencial crítico -, para se retornar à primeira geração – especialmente Theodor Adorno - e sua formulação de uma teoria crítica que, em interlocução com a produção freudiana a respeito do peso da cultura na formatação subjetumo.